terça-feira, 16 de julho de 2019

[LITERATURA] – O que é escrever bem para você?

Olá, acompanhantes do Cantinho da Traça, estou aqui para mais uma postagem sobre Literatura.

Hoje quero falar um pouco sobre o que acredito que seja escrever bem. 

Outro dia, participei de três vídeos produzidos pelo site Mudo Escrito, cada um com uma pergunta sendo respondida. Algo em torno de onze autores responderam cada questão em aproximadamente trinta segundos. Uma das perguntas foi exatamente a do título deste post.

Problema polêmico, acredito. Porque escrever bem, apesar de ter o amparo de toda a técnica possível (e deve ter), ainda é para mim uma questão subjetiva e muito relativa. Isso porque há dois pontos de vista: o de quem produz o texto e o de quem o lê.

No vídeo, a transcrição do que respondi saiu assim:

"Escrever bem, para mim, é ser mais do que meramente técnico. A técnica precisa ser conhecida, mas o autor precisa colocar as suas vísceras, a sua alma; precisa colocar a sua emoção naquele texto – e não estar defendendo argumentos, não estar defendendo ideias que ele, de fato, não acredita. Então, escrever bem é, antes de tudo, ser honesto com o leitor." (fonte: https://www.facebook.com/watch/?v=2342982599306243)




Sou psicólogo, e uma das coisas que mais vi na Universidade foi o fato de que a percepção de uma pessoa sobre alguma coisa não necessariamente corresponderá à visão de outro indivíduo. A subjetividade precisa ser respeitada, porque o que estrutura a percepção, os gostos, as formas como se vivencia uma experiência, varia muito de pessoa a pessoa. Isso tem a ver com muitos fatores, dentre eles os sociais, culturais, familiares, ambientais.

A técnica para um escritor é muito importante, e não acho que se deva abrir mão de seu estudo e aprimoramento constante. Sou meio a rodaniano nesse aspecto (Auguste Rodin acreditava que uma obra nunca está acabada, de forma que  sua arte sempre tinha um quê de incompletude, de inacabado). Com ela, podemos tornar os textos mais belos, mais estéticos, mais aceitáveis e compreensíveis. Podemos conferir mais impacto a eles.

Entretanto, discordo do argumento que escrever limite-se ou dependa exclusivamente disso. Já li textos excelentemente técnicos, belíssimos, muito bem escritos, mas sem alma, sem essência do autor (falo, no caso, de uma mutilação dessa essência, uma impressão de que o autor deixou de colocar algo ali porque a técnica, ou o uso compulsivo dela, de alguma forma o proibiu, ou ele achou que o proibiu).

Tenho visto um bocado de gente vomitando regras de que se deve fazer isso ou aquilo, de que se deve escrever isso e não aquilo. Professam "regras" calcadas naquilo que eles(as) mesmos(as) acreditam que é certo e tomam como verdade universal. Se não são seguidos(as) nos mínimos detalhes, ou se o que leem não abarca aquilo que acreditam ou "defendem" (entre aspas porque nem sempre defendem de fato, às vezes fingem que defendem para fazer um bom nome em meio público - tema de outro post futuro, quem sabe). Dessa postura surgem alguns problemas que comentarei em outros posts, mas que nesse momento basta saber que existe.




Muitos têm consciência de que uma técnica é aplicável em alguns momentos e em outros, descartável. Sabem que há limites. E sabem que há algo além da técnica. Nos textos dessas pessoas é possível encontrar muito de sua essência, e menos "mecanicidade".

A meu ver, de simples e imperfeito mortal, as técnicas são apenas  instrumentos, ferramentas que o autor pode usar para que seu trabalho fique melhor, mais profissional. Um bom emprego delas pode tornar um texto inesquecível.

Mas, antes de tudo isso, é preciso colocar-se no texto. E quando falo colocar-se, me refiro a emoção, visceralidade, alma. Há coisas que não podem ser sacrificadas em nome da técnica em um texto literário. Se pego um autor meramente técnico para ler, é bem provável que tenha dificuldades para terminar de explorar a obra dele. Aos meus olhos, explorar um texto meramente técnico é como comer carne seca e sem sal, insosso.

Quando isso é feito, quando se coloca de forma franca, sem usar subterfúgios da técnica para se ocultar, mas utilizando-a para aprimorar a qualidade do texto, ele se torna "honesto" com o leitor. E, a meu ver, faz jus à arte da literária.

Pode parecer um bocado de abobrinha o que escrevi aqui, e talvez seja mesmo. Mas essa é minha forma de ver a produção literária. Não quero delongar aqui, apenas refletir um pouco. Apenas opinar contra qualquer tipo de ditadura metodológica ou discurso inflexível.

Há um lugar para a lógica na literatura. Mas há, também, para o coração. A medida dos dois ingredientes é uma marca especial de cada autor. Se falta, porém, um dos dois, o texto perde a graça aos meus olhos. Tal como carne seca sem sal ou sal sem carne seca.

Grande abraço,

MM



sábado, 13 de julho de 2019

[O AUTOR] – A Alameda dos Algodões Flutuantes – Mogg Mester

Olá, preciosos acompanhantes do Cantinho da Traça, estou aqui hoje para falar um pouco da obra que tenho publicada, a mesma do título desta postagem: A Alameda dos Algodões Flutuantes.

Esta obra é uma antologia de contos inspirada por alguns autores nacionais a quem muito aprecio. Dois deles em específico: Lygia Fagundes Telles e Fernando Sabino. Claro, há outros contos e autores que me inspiraram, mas os dois mestres acima foram os principais. 

Quero ressaltar que contos com atmosfera non sense, assim como músicas (aqui incluam as músicas do maior cantor nacional, para mim, Raul Seixas), sempre me atraíram. Melhor, me fascinaram. Na escola secundarista, quando a professora nos mandavas ler trechos de contos, eu ficava "viajando na maionese", estupefato com as produções nacionais. 

Algumas delas me marcaram tanto que passei a desejar produzir algo das suas atmosferas absurdas - porque para mim a vida é absurda -, quando decidi começar a escrever. Esbocei uma tentativa ridícula aos onze anos, mas desisti porque não soube lidar com as chacotas de dois parentes meus.



Aos dezoito anos, ao passar no vestibular para Medicina Veterinária, comecei a ousar, e após escrever algumas poesias ridículas (a maior parte hoje não mais existe), já escrevia pequenos contos - que depois viraram papel picado e já não existem também -, em um caderninho meu. O mais curioso é que as ideias vinham como entes vivos que subiam à superfície de minha consciência através de um porejamento lento. Aí, então, eu vomitava tudo no papel, de forma catártica, e depois jogava fora.

O tempo passou e vieram outras coisas. Esqueci a literatura e essas divagações por algum tempo. Foi quando, aos 25 anos conheci uma pessoa que me deu uma resposta a perguntas que eu muito me fazia: Por que gosto tanto de vilões? É patológico?

Essa mulher, hoje já morta, perguntou-me se eu torcia pelos vilões na vida real e eu neguei. Perguntou novamente, e eu neguei outra vez. Ela me respondeu: " Acho que isso tem algo a ver com seu senso estético de mundo. Acho que você tem um escritor reprimido dentro de você". 

Ah, a anima! Fabulosa essência inconsciente que se manifesta na forma de mulher (para o homem)!

Comecei a escrever depois disso. Iniciei pela inacabada obra (mas não morta, ela um dia voltará, mesmo que seja por e-book) A Auriflama do Caos, exatamente porque era o que eu mais tinha facilidade de escrever: temas de RPG. Eu tinha muito contato, e dominava alguma coisa, por isso comecei por aí.



Anos se passaram e eu comecei a sentir que queria escrever algo além de fantasia medieval. Foi quando me lembrei dos contos de Fagundes Telles (minha musa brasileira da literatura) e Sabino (pessoal, esse camarada tem cada obra...), lidos anos antes. A atmosfera do absurdo voltou a pinicar por trás de minhas orelhas.

Contos como "O Homem Nu" (Sabino), "A Caçada" (Fagundes Telles), "O Homem de Cabeça de Papelão" (João do Rio), "O Homem do Furo na Mão" (Ignácio de Loyola Brandão), dentre outros, alicerçaram meu desejo por escrever textos com a mesma essência. Eu amo a literatura do estranho.

Iniciei então, em 2012, uma antologia sem prazo para terminar. Inspirado em mafumeiras que existiam próximas do local onde eu trabalhava (hoje, absurdamente mortas pela prefeitura do município para dar espaço ao gigante de concreto, o BRT, mas eu guardei as sementes de algumas delas, a-há!), comecei a dar vazão a essa essência.

No começo, os contos faziam parte de um romance que estou começando a escrever agora, e visavam contar histórias de alguns personagens. Mas então surgiu Sergio Carmach em 2017 e sua pergunta provocadora: "Lucas, tem alguma obra curta pronta?. Pronto. Ele havia mexido comigo. Em outro momento, Sergio me explicou que estava iniciando uma nova editora, a Verlidelas, e que pretendia lançar inicialmente três autores, com livros curtos, de até 100 páginas e que o texto tivesse qualidade. Eu apresentei a ideia da antologia, ele solicitou uma amostra, enviei um conto (O livro que não terminei de ler), ele gostou, enviei a obra, ele aprovou. Fechamos contrato.


Momento e Ruptura
 

Desatrelei os contos do romance e hoje tenho a antologia A Alameda dos Algodões Flutuantes publicada. Esta trata de um lugar, uma alameda, onde mafumeiras que a ladeiam, promovem um estranho evento: soltam para o mundo uma substância semelhante a algodão, em um processo nomeado pelos moradores de "choro das árvores". Quando isso acontece, pessoas têm suas vidas transformadas, seja para melhor ou para pior.

Cada conto, então, traz a história de alguém que teve sua vida modificada no momento em que as árvores "choram algodão". São onze contos aos quais busquei dar nomes que representassem sua essência calcada no absurdo. Foram escolhidos com cuidado e surgiram em momentos de intensa observação do cotidiano humano.

São eles: Quando as Mafumeiras Choram Algodão; O Livro Que Não Terminei De Ler; O Momento e a Ruptura; Vitrine de Misérias; O Colecionador de Garda-chuvas; O Morador da Caixa de Papelão; O Clube da Mangueira; Nada Digno de Nota; A Torre Depois da Janela; A Disputa; O Último Voo do Zangão.

Para você que ainda não conhece a obra, seguem alguns links que podem lhe mostrar mais sobre ela:







segunda-feira, 8 de julho de 2019

[OPINIÃO] – O Sincronicídio – um romance policial de revelações transcendentais!


Olá, Prezado leitor do Cantinho da Traça, que as suas leituras sejam inumeráveis e infindas!

Hoje iniciaremos uma maratona sobre um autor baiano que tem merecido destaque no meio literário nacional. Falo do escritor Fabio Shiva, sobre quem farei três postagens relacionadas ao seu trabalho. 

Nesta primeira, estou republicando uma opinião escrita há alguns anos sobre sua primeira obra publicada, O Sincronicídio. Na segunda, colocarei uma entrevista por escrito que realizei com o autor, na qual ele falará um pouco de temas como processo de escrita, de como chegou à literatura, dentre outros. No último post, postarei uma nova opinião, desta vez sobre sua mais nova obra “Favela Gótica”, lançada pela Editora Verlidelas, em 2019.

Para começarmos a maratona, então, inicio por uma citação que achei excepcional de sua obra O Sincronicídio:

 “Para que o enredo funcione, contudo, resta ainda que alguém se apresente. Esse alguém deve representar, necessariamente, a força igual e contrária à força do herói. É preciso que exista, em resumo, o antagonista. Somente ao enfrentar um adversário é que o herói se justifica” – Fabio Shiva (O Sincronicídio; pág 22).




Com esse início de ouro, que explica bastante a profundidade do autor cuja obra comentarei agora, saúdo mais uma vez todos aqueles que o leram. Sim, pois estou falando de um autor baiano que trouxe para a literatura nacional uma obra prima digna de se tornar uma série ou um filme.

Falo aqui de O Sincronicídio (Editora Caligo, 520 pág), uma obra de puro suspense policial. Não apenas policial, esse é o grande trunfo do livro, mas também filosófico e psicológico.
Mas que obra policial é essa que promete tanto?

Narrado em primeira pessoa, o romance descreve, através da voz do vilão, um dia da atribulada vida do inspetor Alberto Teixeira. Onisciente sobre o que acontece com o protagonista, o narrador vai detalhando os conflitos vividos pelo agente da lei desde questões no trabalho até aquelas inerentes às suas relações com as mulheres, com a precisão de um atirador de elite. E faz isso exatamente porque aquele é o último dia de Alberto, do qual falará da hora que acorda à hora derradeira de sua morte.

E é assim que seu dia como policial se inicia: com uma trovoada, um café da manhã, uma sessão terapêutica com sua psicóloga (e que sessão). E com um caso escatológico de assassinato que envolve um casal em uma banheira cheia de água, resíduos fisiológicos humanos, um livro de Shakespeare e um motel barato de terceira categoria.




Se fosse apenas isso, seria somente mais um dia normal atrás de assassinos. Logo, Alberto percebe que ele e as vítimas estão envolvidos definitivamente na trama mais estranha em que a sua carreira poderia estar atrelada. Uma trama que envolve pessoas próximas a ele e moedas de cobre que quando ligadas às costas de alguém podem produzir os prazeres mais incríveis, as sensações mais genuínas que um ser humano pode experimentar. E também mortes encadeadas em uma sincronia assustadora, sexo, violência e descobertas que atormentariam os mais conceituados criminosos.

Teixeira vai descobrindo que o caso de assassinato aparentemente simples, com repercussões trágicas que se expandem pelo universo, pode estar ligado a fatos do seu passado profissional e, quem sabe, pessoal. Porém, à medida que vai se aprofundando na investigação, percebe que se metera em uma trama que vai além de Rio Santo e de sua vida. Algo muito maior. Algo que abarca o mundo.

Calcado na ideia do I ching e seus 64 hexagramas, com seus significados específicos, associado ao passeio do cavalo pelas 64 casas do tabuleiro de xadrez, sem que se repita nenhuma (o que  põe a ordem numérica dos capítulos segundo o desenrolar dos fatos ligados aos hexagramas  do I Ching), O Sincronicídio traz como diferencial exatamente a mistura entre tema policial, filosofia e religião. Uma mistura tão bem conduzida, tão eloquentemente arquitetada, que mantém a atenção do leitor ligada do começo ao fim de cada capítulo.

Por isso digo que não esperem uma história convencional. Não esperem a mesmice. Shiva conduzirá o leitor dentro do universo policial perpassando por outras temáticas muito interessantes sem fugir da trama, de uma forma que suas emoções serão instigadas e a curiosidade mantida a cada página.




Ele nos traz um pouco da cultura indiana e suas crenças moldando seu fabuloso universo, associando a história a casos verdadeiros de pesquisadores como Jagadish Chandra Bose, C. G. Jung, dentre outros, o que torna o romance verossímil e convincente sem precisar se manter “no caso nosso de cada dia”.

Além disso, Shiva nos traz personagens únicos, quase que dotados de vida própria. Eles criam uma empatia grande no leitor, que fica torcendo para saber o que acontece com cada um, do início ao fim do livro. O que mais gostei, diga-se de passagem, é o narrador da história. É claro.

Para mim esta é a obra mais inovadora do gênero policial de literatura desde O Xangô de Baker Street. O Sincronicídio traz em sua essência mais do que um thriller de tiroteios sem fim, deduções fantásticas tiradas do nada e heróis bonitões que explodem tudo (e ainda ficam com a gatona no final). Pelo contrário, a obra é um profundo mergulho no conhecimento de tecnologias interessantes, histórias verdadeiras de descobridores enevoados pelo preconceito da “ciência” cartesiana, como foi o caso de Jagadish Chandra Bose, dentre outros temas. 

A encadernação é perfeita, de qualidade. A arte final da capa, excelente. A diagramação, digna de grandes elogios. Uma produção respeitável, por fim. Cada capítulo é iniciado com um texto do I ching e é subdividido por textos que sempre se relacionam com o que vai ocorrer naquela cena. Acompanhando os textos, estão os movimentos das peças de xadrez correspondentes ao momento. Uma sacada genial do autor que agregou muito valor à obra.

Sem dúvidas, estou à espera da continuação da história, que nos deixa com o desejo de saber onde isso tudo vai parar.

Ponto para Shiva.
M.M
 

Vídeo de divulgação aqui

Sobre o autor:


FABIO SHIVA é músico, escritor e produtor cultural. Autor de “Favela Gótica” (Verlidelas, 2019) e “O Sincronicídio” (Caligo, 2013). Coautor e roteirista de “ANUNNAKI - Mensageiros do Vento”, primeira ópera rock em desenho animado produzida no Brasil.. Coordenador de diversos projetos culturais em Salvador-BA: Pé de Poesia, Doce Poesia Doce, Poesia de Botão, P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), Oficina de Muita Música!, Bahia Canta Paz.


 

sábado, 6 de julho de 2019

[OPINIÃO] – Meu Pé de Laranja Lima – José Mauro de Vasconcelos



Olá, prezados acompanhantes do Cantinho da Traça, que as lombadas de seus livros lhes sirvam para algo mais do que manter as páginas juntas!

E a frase do dia é: “Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes caíres das nuvens que de um terceiro andar” Machado de Assis.

Hoje estamos aqui para saber de mais um romance clássico de nossa literatura nacional moderna: Meu Pé de Laranja Lima (editora Melhoramentos, 195 páginas, ano 1985), de José Mauro de Vasconcelos, que tem adaptação para televisão e cinema e se trata de um romance autobiográfico.

Capa do filme mais novo
Este livro trata da história de Zezé, que vive aventuras dentro de seu mundo imaginativo e rico, muitas vezes com seu irmão mais novo, Totoca. Ele explora o universo e o vive intensamente como toda criança ingênua. Nessas brincadeiras, Zezé cria amor por uma coisa inusitada: um pé de laranja lima que havia no fundo do quintal de sua casa. E este passa a ser seu melhor brinquedo e amigo, mais até do que Luciano, um morcego que circula na região. 

Mas, como acontece esse amor todo?

É que Zezé e sua família precisaram se mudar para uma casa nova e cada um escolhe uma árvore para ser sua. Totoca escolhe a mangueira, a maior e mais bela de todas. Antônio ficou com o pé de tamarindo. Restou a Zezé o pé de laranja lima ainda "pueril". Com a proposta de crescer junto com o pezinho, Zezé descobre que a pequena árvore conversa com ele, tornando-se assim sua grande amiga.

Zezé

O livro retrata as aventuras e desventuras de uma criança pobre que vive, junto com sua família, os desatinos sociais a que pessoas como eles estão fadadas. Falta de comida, brinquedos, violência doméstica, problemas educacionais, falta de compreensão e exploração de trabalho infantil: restam-lhe apenas a imaginação como meio para a fuga de tão crua realidade. Surge então esse amigo silencioso, que lhe fala única e exclusivamente, e que o entende nessa fase da vida: o pé de laranja lima.

Ainda há, contudo, algo no mundo que mantém Zezé ligado à realidade. Sua amizade com o portuga, que depois de uma rusga feia tornou-se seu melhor companheiro, mantém-se como uma âncora fixando Zezé no enfrentamento da vida crua. Como um segundo pai, talvez como um tio, ele ajuda o menino a ressignificar o seu contato com o mundo, amenizando os danos da pobreza e ofertando-lhe a companhia que sua própria família não é capaz de lhe dar.

O romance é muito bonito, com toques de humor geniais, uma narrativa leve e associada à capacidade fenomenal que o autor tem de personificar objetos e animais (muito similar à de Terry Pratchett) de maneira curiosa. 

Isso faz o leitor se perguntar: "É tudo imaginação do personagem ou de fato os objetos têm vida?"
O portuga
É claro que sempre podemos entender a questão de maneira metafórica. Podemos dizer que é o indivíduo conversando consigo mesmo ou a contraparte do personagem que o completa e mostra como está seu mundo interior ao leitor. Mas, para mim, o que fica é a magia do diálogo, a forma como o personagem Zezé vive essa relação com seu pé de laranja lima, seja ele o próprio garoto imaginando ou seja ele uma árvore falante. 

O romance é uma boa pedida para quem gosta de histórias leves e fluidas, mas que retratem a dureza da realidade por um ângulo diferente daquele convencional. Boa sugestão para se ler enquanto se lê um livro mais denso em acompanhamento.

Abraço a todos,
MM

O autor: José Mauro de Vasconcelos
Nascido no Rio de Janeiro, em 26/02/1920, e falecido em São Paulo, em 24 de julho de 1984, o autor de família nordestina viveu parte de sua infância em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Estudou Medicina ( abandonou), foi carregador de banana, instrutor de boxe  e operário. Produziu obras diversas, sendo as mais conhecidas  "Rosinha Minha Canoa"(1962) e Meu Pé de Laranja Lima (1968). Dentre outras obras estão: “Banana Brava” (1942), “Barro Branco” (1945), seu primeiro sucesso de crítica, “Longe da Terra” (1949), “Vazante” (1951), “Arara Vermelha” (1953), “Arraia de Fogo” (1955), “Doidão” (1963), “Coração de Vidro” (1964), “Rua Descalça” (1969), “O Palácio Japonês” (1969), “Farinha Órfã” (1970), “Chuva Crioula” (1972), “O Veleiro de Cristal” (1973) e “Vamos Aquecer o Sol” (1974). (Fonte:https://www.ebiografia.com/jose_mauro_de_vasconcelos/)



segunda-feira, 1 de julho de 2019

[LITERATURA] – Mundo Escrito – Qual o papel da Literatura no mundo de hoje?

Olá, moradores dos meandros de papel, estou mais uma vez reativando o blog, após uma reformulação pessoal do meu estilo de escrita e da própria ideia do que pretendo fazer aqui. 

É que decidi acrescentar algumas coisas a mais para além de apenas resenhas sobre livros que li. Pensei em adicionar uma série de posts com pensamentos, dicas, opiniões, entrevistas, textos ou trechos deles (meus ou de outrem), vídeos ou qualquer coisa que eu ache interessante para autores. Viso com isso compartilhar um pouquinho da minha  experiência à comunidade literária brasileira.

Hoje, retorno trazendo um vídeo publicado pelo site Mundo Escrito (aqui), no qual participei como um dos autores que respondem à pergunta "Qual o papel da Literatura no mundo de hoje?".

 
Começo dizendo: não foi uma experiência nova para mim, uma vez que já participei de um vídeo do Clube de Autores de Fantasia (CAF), do qual participo como integrante. Apesar disso, foi algo desafiador, primeiro porque gravei  em um celular e, segundo, porque não tinha um espaço que eu julgava adequado para realizar a gravação. Resultado: a qualidade do meu vídeo ficou horrível.

Quando recebi a proposta do colega e amigo Fabio Shiva, fiquei muito empolgado, ainda mais quando via as perguntas. Achei que seria mais simples que o vídeo que produzi no CAF e que não teria grandes dificuldades. E isso foi um grande engano.

Responder tais perguntinhas em trinta segundos (cada uma) foi complexo. Tive que pensar bem no que diria e ainda assim precisei resumir ainda mais, apesar do desejo de falar, falar, falar... Foram horas e muitos vídeos produzindo o conteúdo. E mesmo assim não fiquei satisfeito com o meu resultado.

Apesar disso, ver a edição final realizada pelo site foi animador. A organização do vídeo ficou excelente, aos meus olhos. As opiniões dos autores participantes foram muito sensatas e diversas. Enriquecedoras. E com isso também ganhei alguma experiência.

Essa atividade me lembrou de uma obra que produzi com Fábio Shiva, Sergio Carmach e outros autores, no ano de 2016: Escritores perguntam, Escritores respondem: Escrever para quê? Ele foi lançado pela editora Cogito, e organizado por Fábio Shiva e Ivan de Almeida, revisado pelo próprio Shiva. Na obra, os doze autores discutem temas ligados à literatura, cada um com uma opinião própria, uma visão própria construída sobre sua experiência pessoal da arte da escrita (aqui).



Vejo nesse tipo de iniciativa uma coisa positiva, pois além de oportunizar o conhecimento de outros autores e suas obras, também nos tira de uma alienação que por vezes podemos cair quando ficamos muito isolados.

Quanto ao conteúdo do vídeo, na page do Mundo Escrito, no Facebook, consta que respondi isso: "Para mim, o papel mais importante que a literatura tem hoje é exatamente a transdução de tudo aquilo que o autor capta e que mobiliza ele de alguma forma; ele observa no mundo para o leitor. E ele vai usar exatamente os seus textos, as suas histórias, para fazer essa transdução e comunicar tudo aquilo que, para ele, de fato é importante. Então, o maior papel da literatura é a comunicação."

Pelo que recordo, o tempo do vídeo foi algo próximo de 30 segundos. Repeti algumas palavras, falei complicado e, para alguns, até usei um termo que não se encaixa na literatura: transdução. Este é um termo usado tanto na física como na biologia, com  significados diferentes em cada uma. Mas a ideia que usei foi exatamente a de transformação de uma forma de energia em outra.

Mas, Mogg, que maluquice é essa de usar um termo da física à literatura?

Bem, confesso, a ideia não foi minha. Lento o livro de uma colega, a professora Denise Ramos (A psique do corpo) vi o termo transdução. Lá, ele foi empregado para descrever o processo de transformação de energia psíquica (vista pela através das lentes da teoria junguiana), corrente em processos conflituais inconscientes, em sintomas físicos, como as doenças. Transformados em produtos orgânicos, eles atuam como símbolos que a psique produz para tornar consciente um conflito pessoal (um complexo constelado).

Extrapolei o conceito para a atividade da escrita. Nesse uso, considero que as vivências do dia, as experiências e observações do autor, ou melhor, tudo aquilo que pode ser convertido em material literário, passa não só por uma tradução  transformação de uma linguagem em outra), mas também por uma transdução. Essa "energia" movimentada na psique por essas vivências e experiências, pelos atritos com esse mundo complicado e mesquinho no qual sobrevivemos, pode ser transduzida pelo autor através do trabalho de tradução dessas vivências de conteúdo psíquico para conteúdo literário, associado com o árduo trabalho da escrita (trabalho). Considere-se a escrita como todo o processo de produção do texto, revisão, reescrita, releitura... Incluam-se ai todas as emoções, as sensações e processos correlacionados.

A comunicação, então, se daria como um resultado desse processo. A peça chave para que ela aconteça, e que tenha algum sentido, é o leitor. Por isso ele "observa o mundo para o leitor", pois traz sua visão, sua percepção transduzida, possibilitada de ser apreendida por meio do texto.

Pode ser até uma besteira o que digo, mas não tenho preocupação nenhuma em comprovar isso cientificamente, fazer sentido para os outros, nem mesmo ser aceito (até mesmo pelos físicos que eventualmente venham a criticar essa iniciativa). Não intento também desenvolver nenhuma teoria, como fez a colega Denise Ramos em seu competente livro. Apenas estou explicando o que pensava ao falar de "transdução" no vídeo.


Claro, se alguém desejar, podemos juntos buscar um esclarecimento melhor para a ideia.

Segue abaixo o link o vídeo Qual o papel da Literatura no mundo de hoje?

Um grande abraço a todos,
M.M